O que parece
Mais um anglicismo corporativo. Daqueles que fazem a sobrancelha do purista linguístico tremer.
Ele gostaria de explicar que fittare não existe. Infelizmente, existe. Até aparece no site da Accademia della Crusca.
O que é
Fittare já é italiano o bastante para ser conjugado: io fitto, tu fitti.
No escritório italiano, reunião vira meeting, opinião vira feedback, avaliação vira assessment, aprofundamento vira deep dive e lucro vira ROI.
Guadagno soa como loja de ferragens. ROI soa como MBA.
A cena
Sala de reunião. Dezoito slides. Três gráficos. Ninguém sabe por quê.
O gerente pede assessment, deep dive e check do ROI. O novato pergunta: “Então vamos ver o que o cliente quer, se o produto serve e quanto vamos ganhar?”
Silêncio. “Sim. Mas precisamos de uma abordagem um pouco mais internacional.”
Chave de leitura
De vez em quando alguém grita: O ITALIANO ESTÁ SOB ATAQUE. Calma. As línguas sempre pegaram palavras emprestadas, deformaram e adotaram.
O problema começa quando a palavra estrangeira não serve para dizer algo novo, mas para fazer o velho parecer novo.
Não é pureza linguística. É prestígio. Durante décadas a Itália importou dos Estados Unidos carros, filmes, música, tecnologia e modelos empresariais. Depois começou a importar também o jeito de chamar coisas que já existiam.
Às 12h27 alguém abre a porta: “Pizza?” A América termina ali. Até as 14h, quando temos uma call.
Talvez não faltem palavras italianas. Às vezes só temos um pouco de vergonha de usá-las.
